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30 de junho de 2009

Planejamento já é uma questão importante para 71% dos negócios de menor porte e a busca por capacitação gerencial resulta em ganho de competitividade

por: Domingos Zaparoli

A KL do Brasil, fabricante das resistências elétricas Reymann, registra crescimento de 26% ao ano desde 2002. No período, a margem de lucro da empresa passou de 5% para 15%. Maria José do Nascimento relata que, em 2002, o processo produtivo da empresa gerou perdas que permitiriam a aquisição de três carros populares novos. Em 2008, as perdas foram reduzidas para aproximadamente R$ 20 mil. "Ainda é um número alto, mas estamos evoluindo", diz a empreendedora. A história da KL, empresa com 80 funcionários fundada em 1995 em Peabiru, no Paraná, mudou após Nascimento, que é formada em Letras, buscar cursos de extensão universitária voltados para gestão empresarial e realizar o Empretec, curso de desenvolvimento do comportamento empreendedor ministrado pelo Sebrae. "Esses cursos me levaram ao sistema ISO 9001, que me ajudou a organizar a casa", diz Nascimento.

Rodrigo Miranda fundou em 2002 a rede de fast food Vininha, especializada em minilanches, com o objetivo de ser uma operação 100% delivery e atender a cidade de Curitiba. Mas, em 2006, Miranda mudou a estratégia e optou por abrir lojas em pontos estratégicos da capital. Já são duas em funcionamento. O empresário pretende inaugurar outras duas ainda em 2009 e chegar a 10 até o final do próximo ano.

Para executar essa expansão, Miranda passou os últimos dois anos aprimorando a gestão de seu negócio. Criou indicadores com os quais acompanha desde o desempenho de seus fornecedores e de seus 35 funcionários, assim como a satisfação deles no emprego. E também mede o comportamento e a satisfação de seus clientes. Os indicadores são as referências para detectar problemas e implementar melhorias. "Só é possível gerenciar aquilo que se conhece", afirma o empresário.

Miranda, que é formado em administração, passou a aprimorar seus controles após aderir ao Modelo de Excelência da Gestão (MEG), proposto pela Fundação Nacional da Qualidade (FNQ). "Os controles me dão segurança para planejar a expansão da rede", diz o empreendedor.

O MEG e o Empretec também auxiliaram a pedagoga Solange Nunes de Sousa e Oliveira a aprimorar a administração da Escola Professor Paulo Freire, em Salgueiro, no sertão pernambucano. Como diz a educadora, "professor faz coisa sem planejar, se joga de corpo e alma em sonhos, sem clareza de como fazer para alcançar seus objetivos". Ela relata que o contato com técnicas de gerenciamento lhe permitiu ter uma visão mais abrangente de seu negócio, que vai do ensino fundamental à faculdade, e assim detectar falhas e oportunidades. "Antes, eu analisava a viabilidade da criação de um curso apenas vendo a demanda de Salgueiro. Agora, analiso a região e vou buscar parcerias com as prefeituras de cidades vizinhas e outras escolas para viabilizar a meta", diz.

Solange Oliveira relata que também passou a padronizar procedimentos de professores e a criar atividades, como a Semana do Saber, que envolve alunos do ensino fundamental ao superior. Com isso, aumentou o índice de alunos da escola que se matriculam na faculdade, reduziu evasão e vem ganhando novos alunos.

O diretor técnico do Sebrae Nacional, Luiz Carlos Barboza, avalia que está havendo uma mudança de comportamento entre os pequenos empresários. "Eles estão mais preparados, buscam informação mercadológica e capacitação gerencial, o que resulta em ganho de competitividade e redução nos índices de mortalidade de empresas", diz o executivo.

Barboza relata que essa mudança de comportamento já foi detectada por pesquisas realizadas pelo Sebrae, que apontam evolução em vários indicadores de eficiência empresarial. Por exemplo, no início da década, o planejamento era uma preocupação central para apenas 24% das pequenas empresas, agora já chega a 71%. O controle financeiro era exercido por 7% e passou a ser praticado por 36%. Iniciativas regulares de marketing serviam a 7% dos pequenos empresários, e agora são feitas por 47%; e o gerenciamento de RH, exercido por 3% dos pequenos no início da década, passou a ser adotado por 38%.

Um ponto importante na difusão de boas práticas gerenciais é a parceria do Sebrae com a FNQ, que resultou numa adaptação do modelo de excelência gerencial da fundação para aplicação entre os pequenos empresários. O interessado acessa o site da FNQ, onde está disponível gratuitamente um roteiro que permite ao empresário avaliar sua própria gestão e compará-la a modelos bem-sucedidos.

Após o diagnóstico o empresário pode fazer cursos pessoalmente ou pela internet e inscrever-se no Prêmio de Competitividade para Micro e Pequenas Empresas (MPE Brasil), um sistema que permite receber uma avaliação externa da qualidade da sua gestão, com sugestões de melhorias. Em 2008, 53 mil pequenas empresas inscreveram-se no prêmio e a expectativa é chegar a 75 mil neste ano.

Ricardo Corrêa Martins, diretor executivo da FNQ, relata que o MEG é um modelo generalista, compatível com diferentes técnicas gerenciais para objetivos específicos, como controle de qualidade, gestão de recursos humanos ou organização da produção, mas que permite ao empresário, por meio de indicadores e parâmetros, estabelecer uma visão sistêmica da sua empresa e integrar, de forma equilibrada, a gestão de suas diversas atividades. "Quanto menor é a empresa, mais difícil é o acesso a um roteiro de referências gerenciais e maior é o impacto que essas referências geram", diz o executivo.

A melhoria no gerenciamento das pequenas e médias empresas ocorrida nos últimos anos também é decorrência do estimulo que grandes empresas exercem sobre suas cadeias produtivas. Cid Fontana Lopez, diretor de desenvolvimento de fornecedores na América Latina da Bosch, relata que desde 2003 o grupo implementou um programa para levar o conceito Lean de gestão da produção, adotado na empresa desde 2000, para seus fornecedores. O programa envolve 380 horas de treinamento, ministrado por profissionais da Bosch, durante dois anos. No período são realizadas duas avaliações. As empresas bem-sucedidas são elevadas à condição de fornecedores mundiais. "Nossa meta é estabelecer uma relação de longo prazo com esses fornecedores", diz Lopez. Ao todo, 35 empresas já se cadastraram no programa, sete obtiveram a classificação de fornecedores mundiais e três estão na fase final de avaliação.

O Lean, também conhecido como sistema Toyota, prega técnicas de produção enxuta, reduzindo desperdícios, como investimentos elevados que geram superprodução desconectada com a demanda, estoques exagerados, retrabalhos, a adoção de processos desnecessários ou perda de tempo por falta de sincronização e organização na produção. "É um sistema completamente compatível com pequenas e médias, que racionaliza o investimento, reduz a demanda de capital de giro e gera ganho de espaço físico e produtividade. Mas, no Brasil, ainda é pouco difundido junto a este público", diz Flávio Picchi, diretor do Lean Institute Brasil.

A Comotec, fábrica de comutadores para motores elétricos com 70 funcionários, é um dos fornecedores que aderiram ao programa da Bosch. Em operação desde 1998 no interior paulista, a empresa tem ainda em sua carteira empresas como Philips, Ametek e Black & Decker. O sócio-diretor Osmar Marques Mendes relata que os primeiros contatos com o modelo Lean ocorreram em meados de 2006, mas a implantação veio de fato em 2008. O modelo gerou um grande impacto na cultura empresarial da Comotec. Uma grande mudança ocorreu na administração da produção. "Trabalhávamos com um estoque de segurança superior a dez dias. Era um desperdício. Hoje produzimos de acordo com a demanda, o que reduz nosso custo financeiro", diz o empresário. Outra mudança ocorreu na forma de lidar com os indicadores de produção. "O sistema Lean nos permitiu sobreviver à concorrência dos chineses."

Fonte: Agência Sebrae de Notícias


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